ESCOLA E FAMÍLIA: PARCEIRAS, NÃO INIMIGAS
A escola é um fenômeno relativamente recente na história da humanidade. A nobreza européia não mandava seus filhos à escola; contratava sábios como tutores para que os iniciassem no mundo das artes e da ciência da época. A religião também tinha um papel importante na educação, já que os aspirantes à vida religiosa tinham acesso ao conhecimento formal, estando, dessa forma, aptos a ensinar. Com a ascensão da burguesia, os ricos comerciantes também exigiram o direito à educação formal para seus filhos, e os conhecimentos antes restritos aos "bem-nascidos" estenderam-se um pouco naquele mundo de estrutura social bem definida e pouco móvel. A instituição escolar somente surgiu como prática corrente por causa das exigências crescentes de um mundo cada vez mais industrializado. A produtividade demandava trabalhadores mais bem preparados para operar máquinas, consertar engrenagens e entender de processos produtivos. Com isso, precisava-se de pessoas que dominassem minimamente os conhecimentos necessários nas fábricas. A popularização dos conhecimentos escolares, porém, não tirou da família sua função intransferível: a transmissão de valores morais e éticos.
No século XX, o acesso à escola tomou proporções nunca antes imaginadas. A dedicação cada vez maior de homens e mulheres ao trabalho fez com que as crianças passassem muito mais tempo fora de casa (assim como os pais) e o papel da escola na formação dos indivíduos passou a ser maior.
O fenômeno que se tem observado atualmente é, no mínimo, curioso. Por um lado, a escola reclama da ausência da família no acompanhamento do desempenho escolar da criança, da falta de pulso dos pais para dar limites aos filhos, da dificuldade que muitos deles encontram em transmitir valores éticos e morais importantíssimos para a convivência em sociedade. Por outro, a família reclama da excessiva cobrança da escola para que os pais se responsabilizem mais pela aprendizagem da criança, da ausência de um currículo mais voltado para a transmissão de valores e da preparação do aluno para os desafios não-acadêmicos da sociedade e do mundo do trabalho.
Confusão de papéis? Falta de objetivos claros de ambas as partes? A definição da raiz do problema não é tão simples assim, e o fenômeno parece mais complexo do que se pode imaginar à primeira vista. O que se percebe, porém, são as conseqüências dele. Nos conflitos de "quem é responsável pelo que", nota-se crianças e adolescentes cada vez mais soltos, muitas vezes desmotivados com a escola, distantes de suas famílias e de seus professores, necessitando de uma atenção maior em relação aos seus conflitos e à sua formação como pessoas.
Um exemplo disso é o problema de disciplina. A escola reclama que os pais não conseguem dar uma educação que ensine às crianças e aos adolescentes o respeito pelas pessoas e pelas instituições. Já os pais alegam que é a escola que não é capaz de estabelecer os limites adequados para a convivência social. No meio desse jogo de empurra, estão o aluno, a criança e o adolescente, personagens de importância indiscutível tanto para a família quanto para a escola, mas cujas necessidades continuam à espera de um olhar mais apurado tanto da parte de seus pais quanto da escola.
A solução para esse impasse não será encontrada no calor das acusações. Ao contrário, estas somente aumentam as indisposições e os enfrentamentos e fazem com que as atitudes necessárias sejam adiadas. O aluno/filho somente será ajudado quando família e escola se encararem responsavelmente como parceiras de caminhada. O que é melhor para a educação da criança e do adolescente? Quais os valores que escola e família pretendem transmitir? Qual o papel de cada uma nessa tarefa? Como elas podem se ajudar?
Se escola e família tentarem, de forma séria, responder a essas perguntas e buscarem os recursos necessários para a concretização de suas metas, a chance de sucesso será maior de ambos os lados e o pacto de paz estará, finalmente, selado.
Andréia Schmidt